entrevista - kika + LP "pra viagem" // bernini vinil


hoje tenho a honra de falar com a cantora Kika. com cerca de 30 anos de carreira na música, seu primeiro álbum solo saiu em CD e LP em 2012, pelo selo Traquitana. “Pra Viagem”, com 8 músicas, é um dos discos que tem segurado a minha mão e me ajudado a atravessar esse período de caos que estamos vivendo. diria que é um álbum pop, com muito reggae e uns dubs tropicalistas que remetem à Jamaica. mas vamos passar a palavra para a verdadeira entendedora do assunto:

bernini: a minha primeira pergunta é para a Angélica (nome verdadeiro da Kika). você deve saber que é difícil apurar informações na internet sobre você, justamente porque “Kika” (sem sobrenome) é um nome comum e outras cantoras também levam esse mesmo nome artístico. passo pela mesma situação quando tento apurar informações sobre uma das minhas cantoras favoritas, que leva o nome de (apenas) Annie. tendo dito isso, eu queria que você me contasse sobre a escolha do nome “Kika” - por quê? e quando foi que o “Carvalho” entrou na jogada?

kika: eu uso Kika como nome artístico porque esse é o meu apelido desde quando eu nasci. acho que esse nome é legal por ser curto e também gosto dele graficamente, gosto da letra "K" e tudo. não acho que precisa de sobrenome, mas já percebi que são muitas cantoras "Kikas" e que isso dificulta um pouco a pesquisa pelos meus discos. na verdade não sei como resolver esse direcionamento, eu faço minha produção sozinha e tem coisa que escapa mesmo.


bernini: você é nascida em 1972, então assumo que pegou a época dos discos de vinil - do auge nos anos 70 e 80, à decadência nos anos 90 e 00, e agora a ressurreição. você lançou o LP “Pra Viagem” ali em 2012, quando ainda tínhamos pouquíssimos lançamentos de mulheres brasileiras modernas nesse formato. quais foram os frutos colhidos com o lançamento do seu disco em vinil?

kika: sim, eu comecei a escutar música em vinil. na infância eu ganhava discos da Rita Lee todo natal e na adolescência já comprava os meus. nos anos 90 vi muitos amigos vendendo suas coleções e comprando CDs, mas eu nunca aderi. pelo contrário, eu morava em Pinheiros e sempre passava nas lojas, nas feirinhas de disco, achava muita coisa legal e barata naquele tempo. em 2009 fiquei sabendo da volta das fábricas de vinil e isso realmente me animou a fazer um álbum. fez todo sentido produzir minhas músicas sonhando com o formato, com a capa, aquele ritual da vitrola e tudo mais.


bernini: você, Juçara Marçal (“Sambas do Absurdo”) e Ana Clara (“Canções de Depois”) foram as únicas cantoras brasileiras a lançar LP de 10 polegadas na década passada (2010-2019). por que a escolha desse formato? por que não foi um 12”? você se sente pioneira no formato aqui no Brasil, quando falamos da geração que está por vir?

kika: eu pensei no formato logo no início, queria fazer 8 faixas, menos de meia hora de música, 10 polegadas, fiz assim nos dois discos. também sempre penso na sequência e nos lado A e B, escolho a ordem das faixas seguindo esse "critério". não tenho informações muito amplas, mas no cenário que conheço só vi discos de 10 polegadas bem mais antigos. na época em que eu lancei não lembro de outro artista ter usado esse formato, então me sinto pioneira sim.



bernini: me chamou muito a atenção o fato de que “Pra Viagem” tem algumas parcerias de peso, em especial na faixa “Pulso”, que tem colaboração da cantora Anelis Assumpção. como surgiu essa parceria? vocês já se conheciam? o dueto é muito lindo, muito sensível, acho de arrepiar.

kika: eu adoro esse dueto, amo a voz da Anelis e fiquei feliz pra caramba com a participação dela. essa música eu conheci na voz dela, uma gravação caseira que os compositores (Mau e o Renato Gama) me mostraram. então foi natural ter a ideia de cantar com ela. a gente já se conhecia sim, ela me convidou pra cantar com num projeto sobre o Moreira da Silva em 2010, uma barato. são muitas participações incríveis nesse disco, essa ficha técnica me mata de paixão. o disco ficou legal por causa disso, porque só tinha gente legal tocando e produzindo.


bernini: hoje o vinil colorido é considerado uma “modinha” por muitos colecionadores de raiz, que preferem o vinil preto. tendo em vista que você viveu o auge do vinil no Brasil, de quem foi a escolha de prensar “Pra Viagem” em vinil colorido transparente? e por quê?

kika: pois é, eu estava trocando e-mails com o fabricante e ele disse que existia vinil colorido, então logo eu escolhi o transparente. eu sempre tive um lance com transparência, gostava de comprar papel vegetal pra trocar cartas com uma amiga, sempre achei lindo. pra falar a verdade eu nem sabia que ia virar modinha, hahahaha.

bernini: “Sai da Frente” é o seu grande hit, com quase 200 mil plays no Spotify, apesar de não ser single e não ter clipe. e pra mim é engraçado, porque acho que “Singing Along” deveria ocupar esse posto. era esse o seu objetivo com “Sai da Frente” - fazer um hit nas plataformas digitais? ou você não esperava?

kika: eu também adoro “Singing Along”, mas acho que o fato de ser em inglês muda um pouco o alcance da música, dificilmente toca nas rádios brasileiras. e “Sai da Frente” ficou famosa não sei como, foi incluída numas playlists legais, sei lá, foi obra do acaso, mas a faixa bem que merece. esse refrão é uma coisa que eu sempre sinto porque eu sou baixinha e adoro show grande, quando ouvi “agora sai da minha frente que eu quero ver o show” já achei a minha cara. essa música é do Leandro Bomfim, do primeiro disco dele chamado “A Malta”.


bernini: o LP “Pra Viagem” recebeu uma tiragem de 300 cópias. mesmo com esse número modesto de cópias feitas, o item esgotou e hoje é considerado raro. como você se sente ao saber que lançou um item que se tornou demandado? o esforço financeiro foi recompensado?

kika: pois é, eu acho que meu investimento financeiro nunca voltou, mas tive uma recompensa artística muito massa. o disco esgotou rapidinho, frequentou várias listas de melhores do ano, foi pra todos os jornais e revistas e recebeu críticas calorosas de jornalistas que admiro muito. cada texto tão lindo que eu queria colocar num quadro, hahaha.

performance ao vivo de "Manhãzinha" em 2013, no SESC Campinas

bernini: queria que você comentasse acerca da possibilidade de uma prensagem pós-pandemia em CD e LP do seu segundo disco, “Navegante”, de 2016.

kika: eu adoraria lançar o Navegante em vinil. penso em fazer o 10" dele pra ficar juntinho do outro e também queria lançar uns 7” de “Armour” e “Flor de Maracujá” com as versões dub. o Victor Rice, que produziu o disco, chegou a fazer alguns dubplates dessas faixas, que estão com os Djs Paulera e Gabi Pensanuvem. essas músicas rolam nas baladas de reggae em vinil de São Paulo, mas só com esses dois DJs que têm a bolacha.


bernini: você é de São Paulo, eu sou de Curitiba e quem me levou a conhecer a Kika foi o meu amigo Henrique Dídimo, que mora em Fortaleza. existe também um burburinho sobre “Pra Viagem” no exterior. como você se sente, como artista independente, ao ver seu trabalho quebrando fronteiras e chegando de Norte a Sul?

kika: eu acho bem louco mesmo. eu não tenho nenhuma estratégia de divulgação, nunca paguei um centavo de jabá e as músicas tocam em vários lugares. até no exterior rola um carinho, volta e meia recebo mensagens de rádios, bandas super legais, pessoas que eu nem imaginaria que conheceriam meu som. eu adoro estar vivendo nessa era de horizontalidade e comunicação.


bernini: Kika, querida, muito obrigado pela entrevista, foi um prazer conversar com você hoje. queria que você deixasse uma mensagem de apoio aos artistas que, como você, passam pelo momento da pandemia do covid-19. beijos e até a próxima!

kika: você que é um querido, adorei te conhecer, acho que vamos curtir muito juntos ainda. 

eu não sei nem o que dizer, não tenho idéia de como vai ser depois da pandemia, nem para os profissionais da arte nem pra ninguém. infelizmente já estou me despedindo de pessoas muito amadas, essa dor todos levaremos, é irreparável.

a arte sempre vai existir, é através dela que o ser humano evolui, é nossa missão. mas quanto à vida prática eu não sei. como sobreviver enquanto tudo muda?

um beijo bem grande para você, muito obrigada pelo convite!


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entrevista concedida por Whatsapp na noite do dia 12.05.2020

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Kika - "Pra Viagem" LP 10" (Traquitana, 2012)

álbum: ✭✭✭✭✭
edição em vinil: ✭✭✭✭✭

onde comprar: ESGOTADO
média de preço de revenda: ?

Comentários

  1. Gosto demais do trabalho da Kika apesar de estar longe de São Paulo. Uma das cantoras mais afinadas que já ouvi. Sua voz desliza pelas melodias que canta. Sou fã.

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