colecionadores de hype // Noize Record Club e Três Selos

 no Brasil de 2020, no ápice da pandemia mundial do COVID-19, temos duas revistas nadando contra a correnteza e lançando discos de vinil em edições limitadas mensalmente. embora existam comparações entre as duas, o modo de trabalho e principalmente a curadoria são diferentes e, no fim das contas, acabam sendo complementares para quem pode desembolsar cerca de R$250 mensais para assinar os dois clubes.

minha coleção Três Selos 2019

ninguém é perfeito. enquanto a revista Noize "atira para tudo quanto é lado" com uma curadoria um tanto quanto confusa - em um mês lançam Raul Seixas, no mês seguinte lançam Duda Beat -, a Três Selos não tem vergonha em assumir o coleguismo e beneficiar os artistas preferidos dos donos do selo - até o presente momento, a Três Selos já lançou 14 discos de vinil da banda Metá Metá (que eu particularmente amo, mas poderiam dar oportunidade para outras pessoas). 

perdoados os defeitos de cada revista, é bom lembrar que os pontos positivos falam muito mais alto. a Três Selos conta com prensagens de luxo, com vinil 180g, capa dura, pôster e OBI, enquanto o som é masterizado por um profissional especializado. já a revista Noize está há anos no mercado alimentando colecionadores que há muito estavam desamparados, além de contar com um valor muito acessível.

decidi escrever esse artigo após o anúncio da edição 39o do Noize Record Club - uma reedição do disco "Marku" (1983) do cantor mineiro Marku Ribas. cambistas e vendedores abusivos já cogitam vender o disco (ainda disponível para venda, no momento da postagem desse texto) por R$500 mediante a entrega dos kits em outubro.

enquanto colecionadores se interessam em colecionar apenas raridades (e não discos), os cambistas trabalham de modo a agregar valor para todo lançamento dos clubes, se valendo do rótulo "edição limitada". é basicamente um abuso consentido.

                                             

mas nem sempre os cambistas conseguem especular altos valores para discos das revistas e, devido à baixa procura, alguns lançamentos excelentes acabam caindo no limbo. é o caso de "Azul Moderno" de Luiza Lian (revista Noize, 2018) e "Longe de Onde" de Karina Buhr (Três Selos, 2020). dois discos excelentes e completamente acima da média mas que, como ainda não foram vendidos acima de R$400, passam despercebidos pelos olhos dos colecionadores de hype

entre os colecionadores de hype, conta-se nos dedos aqueles que não desejam um exemplar de "Letrux Em Noite De Climão" (2018), edição esgotadíssima e que caminha para o valor de R$1000 em breve. entretanto, a grande maioria não consegue sustentar uma conversa sobre o disco, não conhece as faixas e não segue o trabalho da cantora. 

a mesma coisa com "Ascensão", de Serena Assumpção (Três Selos, 2019). todos querem uma cópia, mas poucos sabem - pasmem - que, por exemplo, Serena Assumpção já faleceu há meia década ou, além disso, que a artista mal cantou no disco. ou que a cantora é irmã da excelente Anelis Assumpção, ou o fato de que o disco demorou 6 anos para ser gravado, etc etc etc etc etc etc.

enfim, o desejo de obter um exemplar é baseado puramente em status e hype, e não na admiração da música desses dois (e de tantos outros) discos plurais e históricos da nova música brasileira. 

e vocês podem me perguntar - o que eu tenho a ver com os critérios de colecionismo de alguém? bom, eu também sou colecionador e muitas vezes sou afetado pela especulação mútua de cambistas e colecionadores de hype.

eu coleciono música. e você?

melhorem.

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